ago 312009
 

TRECHO:
NOTAS PARA UM ENSAIO

(Sobre a filosofia mística através dos tempos, por ocasião do último livro
do Dr. Jorge E. Adoum)

1.
Foi FREUD quem trouxe ao mundo a sua palavra que funcionou como
bofetada definitiva nos velhos ídolos de barro, quando descobriu para
nós o profundo e obscuro enraizamento sexual das religiões. Junto ao
fantasma da libido colocou o fantasma branco do misticismo
impenetrável, misterioso, ultraterreno. quele que se acreditava santo œ
no sentido torcido de uma castidade equívoca œ o velho professor
atrevia-se a julgar como a sublimação daquele mesmo impulso que fazia
com que a Humanidade se reproduzisse. —Totem e Tabu“ faria, então
com que lábios amedrontados se abrissem para o grito estentóreo do
escândalo e da blasfêmia… E em paralelo com o masoquismo dos
silícios e o desvio das beatas e mártires, as ideologias místicas tiveram
por fim uma raiz humana, tão humana quanto a carne e seus prazeres.
Especialmente humana como a tortura do desejo condenado a
satisfações imperfeitas. O sexo transfigurado em mito, em símbolo de
perfeição.
2.
Foram MARX e ENGELS que desenvolveram, novamente, a história da
Humanidade. O materialismo dialético encontraria a razão de ser dos
homens e dos povos. Dali ao fator econômico decisivo na história como
luta de classes ou como produto do meio, não havia senão um passo
correlato, lógico e imediato, ao escalão seguinte. LUCIEN HENRY, em
seguida, à luz do materialismo histórico, escreveria suas —Origens da
Religião“. Demasiado extremista, talvez. Demasiado extremista, porque
denigre o fundo místico de todas as religiões, como se em todos os ritos
só houvesse observado as vestimentas; como se, na comunhão dos
cristãos, em suas consciências íntimas e geralmente reunidas em torno
de uma confusão que não estão interessados em destruir, não tivesse
encontrado nada, a não ser uma poeira fina ou um vinho embriagador. E
o próprio ENGELS, ao investigar a origem da família, assinalaria, no
prólogo de apresentação às descobertas de MORGAN, BACHOFEN e
MAC LENAN os dois grandes motores da história: o sexo e o meio social
do desenvolvimento, os quais estariam comprovados, desde suas
origens, na religião primitiva das tribos da América e da Austrália.
3.
Indubitavelmente, o florescimento das filosofias místicas sobre o globo
tem sua explicação individual e social. Não terão, acaso, para nós, uma
explicação histórica, um imperativo social gerador, a criação de Brahma,
o —Evangelho do Senhor Buda“ ou o —Livro da Senda e da Linha Reta“
escrito por LAO-TSÉ, o ancião das barbas cor de neve? Têm para nós,
homens do século XX, a mesma transcendência que para os habitantes
das margens do Ganges ou do Yang Tse Kiang, antes de Cristo? Ou
para os que se extasiavam ante os transbordamentos do Nilo, face a
mística superstição de Èsis ou Osíris ou face à branca e radiante abertura
dos lótus sobre as águas ou ainda ante o sagrado e voluptuoso
desenvolvimento das serpentes? Tais coisas, que permanecem como
relíquias imperecíveis em nosso arquivo œ melhor ainda como estilos de
arquitetura humana, face aos fenômenos internos e externos da
Natureza œ perderam, parcial ou totalmente, para nós, seu peso de tabu,
seu pavoroso poder de encadeamento e cegueira. Sentimo-las, sim,
como o atavismo que permaneceu dormindo e sonhando em nosso
sangue e que desperta ante uma freira jovem, ante um incensório
fumegante ou ante a mãe que confia na oração que aprendeu, apesar de
inútil e frágil como os rolos de fumaça.
4.
Mas resta em todas elas um apoio. Um apoio mais humano e mais perto
do alcance do homem, como as moedas de um centavo. Resta essa
compenetração lírica. Quem poderá assinalar, definitivamente, a linha
demarcatória aonde termina a filosofia e começa a poesia? Aonde
encontrar a fronteira divisória entre o místico e o lírico? E como se não
soubesse œ ou não pudessem saber œ sua nacionalidade de origem, os
grandes iludidos permaneceram vivendo dentro dessa ilusão até os dias
de hoje. PLATÀO œ fantástico visionário œ criando seu mundo utópico,
dando cores a uma lenda como a do mágico de Oz ou de Alice no País
das Maravilhas, fica pequeno ou invisível ante líricos maiores. Seu
mundo das idéias não está, acaso, para as crianças, no mesmo nível
simples e sublime das Fadas e dos Gnomos? E a construção da sua
República, quem poderia afirmar se não ficaria melhor colocando figuras
de chumbo sobre um tabuleiro azul … !? E viria um outro, séculos mais
tarde, igualmente iludido. Um velho doente e sem rumo que alguém
acreditou ser filósofo. O que encontraria as origens da tragédia. O que,
mergulhando nas águas profundas, iria —Além do Bem e do Mal“. O que
encontraria as origens da tragédia. O criador do Anticristo. Aquele que
pintou o ocaso dos deuses. Em que página de NIETZSCHE não
encontramos um poema, de igual profundidade lírica œ não na forma,
mas no que tem de profundo œ quanto os escritos por LEOPARDI ou por
RILKE, o poeta que morreu por cortar rosas para sua mulher? Filosofia
obscura, transcendente, insone em algumas de suas linhas. KANT seria
o mestre de DESCARTES. Filosofia ou desintegração do humano.
5.
E em todos os mestres e discípulos uma obsessão constante: o super-
homem, a superação humana. Sempre a busca œ infrutífera? œ do
caminho reto. —A vida é um sofrimento eterno e não vale a pena ser
vivida“, diria o mestre da Èndia. —Mata o desejo de viver“, eis a fórmula da
superação, após grandes transmigrações de alma para alma. E viria um
outro: —Amai-vos uns aos outros“. —Vende tudo que possuis e reparte-o
entre os pobres, toma a tua cruz e segue-me“. Era tudo que se precisava
fazer para obter a salvação … .E viria o grande poema da humanidade
futura: —Assim Falou Zaratustra“. E nos rincões do Oriente, GIBRAN œ
imaginação oriental, por fim œ visualizaria —O Profeta“.
6.
E dizemos agora, em resumo: se tudo aquilo foi produto de uma época,
que já não tem para nós o poder da regeneração, mas que continua,
ainda hoje, trabalhando e girando em nós a gigantesca turbina de nosso
instinto sexual, dando origem ao místico, e se todos estamos
convencidos de que devemos preparar o homem da nova era, que
caminho nos resta? … Pergunta angustiante, Pergunta que traz, a
reboque, uma caravana de contradições íntimas e que nos liberta de
qualquer resquício de fanatismo. Se é imperativa a necessidade de criar
o homem-arquétipo, o homem que represente o avanço acelerado dos
séculos, que linha reta devemos seguir, que evangelho pregar, se tudo
já nos chega apenas com cheiro de antiguidade e contextura de
porcelana? Quem será nosso Mestre? Buda ou Confúcio? Lao-Tsé ou
Maomé? Jesus ou Zaratustra? Ou, talvez, por estar mais próximo de
nós, o profeta de GIBRAN? Ou seria necessário um novo evangelho
—Século XX“? Ou serviria, apenas, para eletrizar as consciências, a obra
de ENGELS? Ou seria o caso de se estabelecer uma nova moral –
estação final de todos os caminhos – calcada nos princípios do
Marxismo? E, até que ela exista, por onde irão nossos passos, após a
agonia do Cristianismo, de que nos falou UNAMUNO ou após a
constante ruptura de relações com os deuses?
7.
Afirmar que —O Livro Sem Título de um Autor Sem Nome“ é o evangelho
tipo —Século XX“ soa demasiado atrevido. Talvez porque só o tempo œ
essa pequena praça que se estende à frente de um edifício de grandes
proporções œ possa dar a perspectiva suficiente para julgar se existe a
necessidade de um novo evangelho ou se esta ou outra obra representa
o símbolo esperado para o misticismo atual. No entanto, esta nova obra
de Jorge Adoum contribui œ e para dizê-lo não precisamos que os anos
se escoem – para a conformação moral do individuo novo. A verdade é
que hoje em dia a grande massa humana vive despreocupada no que
tange a religião como rito ou como filosofia. É que já tínhamos
construído nossas bases e alicerces éticos quando nossa infância se
desenhava entre cabeleiras cacheadas e olhos brilhantes. Há que
buscar uma nova moral, sem preconceitos ridículos, e um novo
Evangelho sem —mistérios“, nem —milagres“ para a conformação das
novas infâncias.
8.
Eu dizia que não era este o livro esperado. Não é, porque sempre
apresenta algo de individual, algo que é próprio de Adoum. Seu pecado
juvenil, a política, o faz exteriorizar conceitos que poderiam não estar de
acordo com o momento eminente e decisivamente político, nem com o
resto dos homens. Seria difícil aplicar seus conceitos políticos a
Mirabeau e Danton, a Espártaco, aos Gregos, a San Martín, a Bolívar ou
a Lenine. E, noutros temas, prevalece sua personalidade sobre o
universal… isto, no entanto, encontra sua razão de ser no fato de que
Jorge Adoum não é um profeta, nem um enviado. É, simplesmente, um
artista que, nesta sua última obra, supera a si mesmo de um modo
notável. Supera a si mesmo, porque é uma obra para todos. Não para
todos e para ninguém, como o evangelho de Zaratustra, com o qual
muito se assemelha. Para todos, porque todos podem e devem
compreende-lo. Em seu relato Adoum degusta o extraordinário, como se
não tivesse encontrado elementos artísticos na vida diária. Seus
personagens não vivem sua própia vida, mas aquela que Adoum lhes
empresta. E todas as cenas terminam biblicamente. Há um fecho moral
em todos os relatos que œ como se disse certa feita œ pode cumpriu uma
missão, mas diminui os quilates da arte contista. Esta é uma grande
obra, eminentemente moralizadora, profundamente reflexiva,
amenamente filosófica e agradavelmente lírica. Com muito de si mesmo,
é bem verdade. Onde, porém, ficaria o matiz característico de cada autor
e de cada obra se tal coisa viesse a ser destruída? A fantasia platônica,
muito semelhante à de Garcia Lorca, por seu feminismo, poderia ser
explicada sem estudar, antes, a conversão sexual de ambas? O
—Emílio“de Rosseau, assim como toda a sua filosofia, poderia ser
explicada sem conhecer sua evasão íntima rumo à solidão ou a
existência de seu doloroso masoquismo? Poderíamos decifrar a obra de
Proust e do apóstolo Dostoiewsky sem, antes, analisar sua
personalidade anormal?
9.
E eis que Jorge Adoum não nos vem trazer a —palavra do Senhor“. Ele
vem refletir e fazer-nos meditar sobre a vida que gira à nossa volta,
sobre os homens a quem vemos todos os dias. Sobre os problemas
diários e ainda sem solução.
Sua obra, que considero a melhor, a mais integral e completa,
vista em conjunto é obra moral e filosófica feita consoante a
sensibilidade da humanidade de hoje. De qualquer raça e de qualquer
continente. De qualquer tendência… Quase, até, de qualquer idade. É
uma contribuição ao monumento que amanhã havemos de conseguir
erigir: o super-homem verdadeiro e não a ínfima redução humana, o
—super-homem“ que eletrizou o mundo durante tantos anos. Não a
criação de mitos para ignorantes, mas a superação de débeis e
enfermos, assim como de sadios, para chegar àquela meta que todos,
alguma vez, nos propusemos alcançar, sem lograr prosseguir. É
somente, uma contribuição. Até que venha œ quem sabe quando e
donde? œ aquele que dite o evangelho definitivo que todos,
absolutamente todos os seres humanos sigam conscientemente.

Quito, maio de 1945.
JORGE ADOUM (FILHO)



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